segunda-feira, 15 de março de 2010

O Imperador Adriano






" FALA SÉRIO , o Adriano mandou amarrar a noiva numa árvore?"; "Se juntar o Adriano, o Ronaldo e o Roberto Carlos dá tranquilamente 16 toneladas"; "Wagner Love atropelou um cachorro na hora de fugir do barraco da noiva do Adriano"; "O Dunga não é garoto-propaganda de uma marca de cerveja? Então não deveria impedir a convocação do Adriano"; "Adriano é um GOLEador nato"; "Adriano já se recuperou uma vez e acho que agora vai repetir a dose"; "Adriano devia jogar basquete. Pelo menos, ninguém ia reclamar de ele ficar no garrafão"; "Então vamos levar um alcoólatra para uma Copa do Mundo. Que belo exemplo para a juventude!"
Os comentários elevados que você acaba de ler, e que peço perdão por publicar, eu tirei dos blogs e do Twitters que acesso diariamente. Foram feitos por leitores iguaizinhos a você, todos com algum pitaco a dar sobre mais um episódio rumoroso envolvendo o "Imperador", camisa dez do Flamengo, que se viu nu após o vice-presidente de futebol do clube, Marcos Braz, declarar com todas as letras, em entrevista a Rádios do RJ, que Adriano é dependente de álcool. "Adriano tem problema com a bebida. Quando começa, não consegue parar", sintetizou o dirigente. Pois eu pergunto: se o problema do Adriano realmente for o álcool, expô-lo publicamente dessa forma pode ajudá-lo a parar de beber? Ou será que isso só irá servir para marginalizar ainda mais o jogador?

Que eu saiba, o nome da instituição que mais serviços presta aos portadores de dependência de álcool no mundo é Alcoólicos ANÔNIMOS. Algum bom motivo deve existir para isso, não?

E está certo que Adriano e a noiva, Joana Machado, andaram dando vários metros de pano para manga, mas a liberdade, como mostra os meus exemplos, com a qual o torcedor e a imprensa agora comentam a ligação de Adriano com a bebida não terá aumentado depois da impensada declaração do dirigente?

Nos últimos dias, vários cronistas de futebol se travestiram de especialistas em alcoolismo para deliberar sobre o caso. Houve quem desse conselho, quem puxasse a orelha e alguns, magnânimos em sua condescendência, chegaram a oferecer a solução do que ele deve fazer para se livrar de seu suposto problema.

É bom saber que quem entende de futebol também é qualificado para opinar sobre assuntos tão díspares. Na próxima vez que eu tiver uma gripe, vou ligar correndo para os experts Juca Kfouri ou Milton Neves e perguntar o nome do remédio mais apropriado ao meu caso.

Nas mesas redondas de futebol da TV e da internet, os neoespecialistas em alcoolismo já têm a receita prontinha: o que o jogador precisa é ter "força de vontade".
Ora, se Adriano tem mesmo uma doença progressiva e incurável, que é como a Organização Mundial da Saúde define o alcoolismo, esse tipo de consideração moral não deveria entrar em questionamento. Alguém por acaso chama um diabético de "fraco" quando ele não resiste a um pedaço de bolo?

E, se alcoolismo fosse tratado na base de força de vontade, as salas de AA provavelmente estariam às moscas e todos os dependentes continuariam nos bares. A palavra chave para Adriano é tratamento, expressão que não ouvi ser enunciada nenhuma vez nesta semana em relação ao jogador. E conscientização, como se sabe, é coisa que leva certo tempinho para ocorrer, né, não, senhores especialistas?

Quando nós temos um problema com álcool ou outras drogas o que aparece de palpiteiros sem nenhuma base para falar sobre este assunto e o pior é que a família entra nessa e cada vez mais piora a situação da pessoa que tem este tipo de problema.

Prestem atenção, não se leva uma criança recém nascida com gripe a um cardiologista e não se leva um hipertenso a um pediatra, embora ambos sejam médicos, na questão do alcoolismo e das drogas se deve procurar especialistas, faculdade de medicina e de psicologia não ensinam nada com relação a alcoolismo e drogadição, eles necessitam se especializar nesta área.


Extraído: Equipe ARCA - Tadeu Assis - Técnico em Dependência Química



"Neste mundo a pessoa só é boa enquanto ela produz, se falhar não tem perdão. Infelizmente."
KACS

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